quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

La Clase Muerta

Tadeusz Kantor, um artista que revolucionou o teatro contemporâneo








As explicações de Kantor para o seu espetáculo “A classe morta”

Uma sala escolástica

Do último canto escondido da memória, de uma qualquer parte em um canto estreito, se projetam algumas filas de BANCOS de escola pobres, de madeira...
LIVROS envelhecidos se desintegram em pó...
Em dois CANTOS, se sela a recordações de punições de um passado distante, como modelos geométricos desenhados com o giz na lousa...
O W.C. da escola, onde se experimentou pela primeira vez o gosto do proibido...
Os alunos, velhos infantis na beira da tumba, e os assentos... levantam a mão no gesto que todos conhecem, e assim permanecem... como se pedissem alguma coisa, qualquer coisa de decisivo... saem... a sala se esvazia...
e improvisadamente retornam todos... se inicia o último jogo da ilusão...
a grande entrée dos atores...
levam todos pequenas crianças, como pequenos cadáveres...
Alguns destes balançam inertes agarrando-se com um desesperado movimento, prendendo-se, arrastando-se, como se fossem o remorso da consciência, rastejando aos pés dos atores, como se este rastejassem nestes exemplares em que se transformaram.. criaturas humanas que exibem despudoradamente os segredos do próprio passado, com as EXCRESCÊNCIAS da própria INFÂNCIA...


Personagens de “A classe morta”

Uma MULHER DA LIMPEZA – uma megera primitiva, não faz outro que executar sem parar as próprias tarefas. A sua futilidade na situação em andamento de desintegração da CLASSE MORTA tem uma força de sugestão ofuscante, quase de circo, que faz referimento ao caráter transitório das coisas. As suas ínfimas funções se deslocam dos objetos às pessoas e esta não equivocada lavagem dos corpos revela o território mais remoto da MULHER DA LIMPEZA – A MORTE.
A sua transformação final em uma horrenda dona de bordel funde as idéias mais distantes em uma certa reconciliação sem compromissos, mas humana: morte – vergonha – circo – putrefação – sexo – mistificação – imundície – degradação – desintegração – pathos – o absoluto...
A serva lê as “últimas notícias”... 1914 ...
a explosão da primeira GUERRA MUNDIAL...
O assassinato do príncipe da Áustria em Sarajevo... o bedel canta o hino nacional austríaco “Oh Deus, protege o nosso Imperador...” (Na região da Polônia ocupada pela Áustria, a figura do nosso monarca albsburgo graciosamente reinante era um símbolo revestido pelo fascínio da juventude das nossas avós e uma ironia a este magnífico fantoche).
Um BEDEL – uma pessoa do “escalão inferior”, inseparável da sala de aula, onde transitou toda a melancolia dos velhos tempos – “perfeito”, já que continuará ali sentado para sempre – e os seus suspeitos retornos à vida são ainda outros esforços feitos em aula. Não se deveria levá-lo a sério...
Uma MULHER ATRÁS DA JANELA. A janela é um objeto extraordinário que nos separa do mundo “que está da outra parte”, do “desconhecido”... da Morte...
O vulto atrás da janela – quer comunicar alguma coisa com urgência, quer ver alguma coisa a qualquer preço; com um senso de total desespero ela observa cada coisa que está acontecendo em sua volta, e o seu comentário ininterrupto se torna sempre mais malicioso e envenenado; transforma-se em uma Fúria e os seus líricos encorajamentos a um picnic de primavera terminam no frenesi do terror e da morte.
Um VELHO DO W.C. – se senta na privada da escola como antes, neste lugar especial onde a solidão ressentia a liberdade... si senta em modo indecente com as pernas abertas, imerso em tarefas intermináveis (talvez fosse um balconista de bar em uma pequena cidade do interior)... Calejado da dor e da ira conduz os seus desafios, não claramente definidos, com o seu Deus... sobre este escandaloso Monte Sinai...
Um VELHO COM BICICLETA, que não quer separar-se da sua bicicletinha, um piedoso brinquedo todo estragado da sua infância... Realiza continuamente essa ronda noturno, só que o lugar se restringe singularmente à classe, entre os bancos... e não é ele que se senta neste veículo bizarro, mas uma criança morta com os braços escancarados... Tudo isso acontece durante a LIÇÃO NOTURNA e em um SONHO...
Uma PROSTITUTA-SONÂMBULA – quando ainda estava na escola cometeu excessos famigerados... Fingia ser a modelo de uma vitrine, um manequim que estava freqüentemente nu em público... não se sabe se depois os seus sonhos foram realizados... Ora, neste SONHO DA CLASSE MORTA, ela realiza o seu giro indecente entre os bancos repetindo o gesto obsceno de mostrar os seios...
Um ALUNO QUE NÃO CONSEGUIU LEVANTAR-SE – Um DISTRIBUIDOR DE ANÚNCIOS MORTUÁRIOS – um escolar manco e infeliz, ignorado por todos, sadicamente maltratado pelos companheiros, talvez obrigado a servi-lhes, talvez usado para carregar os livros ou as malas dos companheiros... Em sonho, ligado à criança por uma corda, repete obstinadamente uma lição de GRAMÁTICA... expõe a lição, não pedida por ninguém, diante de uma classe absolutamente indiferente e agitada... em seguida revela sua notória complacência, levando em giro, e distribuindo ao companheiros, os anúncios mortuários de alguns entre eles...
Uma MULHER COM O BERÇO MECÂNICO – As “brincadeiras” de escola – aqueles incidentes angustiantes e dolorosamente “desnudados”, “implumi”, “foruncolosi”, desprezados no silêncio embaraçoso, mas reconhecidos pelos adultos como formas inferiores de desenvolvimento – são realmente a matéria original “primaria” da vida. O seu caráter desinteressado e a sua ineficácia na vida os conduzem às regiões da arte.
Essas brincadeiras contêm a nostalgia dos sonhos e o caráter definitivo das ultimas coisas. As suas realizações vitais “maduras”, são uma horrível degeneração oficial.
A MULHER COM O BERÇO MECÂNICO torna-se o objeto de um jogo cruel no qual participa toda a classe: ela é perseguida, capturada e colocada em uma máquina singular, que no catálogo figura como uma MÁQUINA DE FAMILHA. As suas funções não são por nada ambíguas. É necessário notar, assim de passagem, que neste teatro as funções mentais e biológicas são insolitamente “objetualizadas” em modo escandaloso. Com esta função são usados diversos tipos de “Máquinas”, freqüentemente primitivas, de modo bastante infantil, com um valor técnico mínimo, mas de grande carga fantástica.
A “MÁQUINA DA FAMILHA” é manobrada à mão e provoca o abrir-se e fechar-se mecânico das pernas do culpado. É claro que não existe nenhuma dúvida de que este é o ritual do fazer o nascimento. A MULHER DA LIMPEZA/MORTE carrega um BERÇO MECÂNICO que é muito parecido com um caixão. Como conseqüência, bastante compreensível, o BERÇO MECÂNICO (literalmente, desta vez) faz oscilar duas bolas de madeira provocando um rumor seco e nervoso. É esta a brincadeira brutal da MULHER DA LIMPEZA... nascimento e morte – dois sistemas complementares. (Todos estes acontecimentos são ligados de maneira obscura e emblemática com os acontecimentos tratados no drama).
Não surpreende, então, que a própria MULHER COM O BERÇO MECÂNICO, submetida a outras estranhas “cerimônias” - enquanto lhe CÓSPEM em cima quase ritualmente e a cobrem com lixaradas – canta uma NINA-NANA que é um grito desesperado...


Advertência


As figuras da CLASSE MORTA são indivíduos ambíguos.
Como se tivessem sido despedaçados e depois re-colados junto com vários pedaços e fragmentos sobrevividos da infância, com os destinos experimentados na própria vida passada (não sempre respeitáveis), com os seus sonhos e as suas paixões, estes que continuam a desintegrar-se e a transformar-se neste elemento e movimento teatral, fazendo estrada sem trégua em direção à própria forma final, que se esfria de modo veloz e irrevogável e que é destinada a conter toda a sua felicidade e todo o seu sofrimento: A INTEIRA MEMÓRIA DA CLASSE MORTA. Os preparativos finais para o GRANDE JOGO com o NADA são feitos com rapidez. Posto que tudo isto acontece em teatro, os atores da CLASSE MORTA observam fielmente as regras do ritual dramático, assumem papéis em qualquer drama, mas não atribuem a esse muita importância, recitam automaticamente, por hábito; temos até a impressão de que eles se recusam obstinadamente a reconhecer que estão em tais papéis, como se estivessem apenas repetindo as frases e as ações de um outro, afastando-os de si com facilidade e sem escrúpulos; estas regras são infringidas periodicamente como se fossem mal entendidas; existem alguns vazios preocupantes e faltam muitos pedaços; devemos confiar nas hipóteses e na intuição.
Talvez não interpretem nenhum drama; e mesmo que estejam tentando criar alguma coisa, de qualquer maneira não é muito importante diante do JOGO que de fato está sendo apresentado neste TEATRO DA MORTE!
Esta criação de ilusões, esta improvisação negligente, esta superficialidade, estes fragmentos de frases, estas ações que se apagam, somente algumas intenções, toda esta mistificação, come se realmente interpretasse algum drama, esta “futilidade” – somente estas coisas nos induzem a pensar de estar vivendo esta experiência e o senso do GRANDE VAZIO e da fronteira além da MORTE.
A seqüência da sèance da “Classe Morta” intitulada “Colisão com o Vazio” contém, sem ambigüidade, o núcleo teatral deste Grande Jogo.
Seria injustificável pedantismo de bibliófilo tentar encontrar aqueles ausentes fragmentos necessários para um “conhecimento” completo da trama deste drama.
Esse seria o sistema mais simples para destruir uma esfera importante que é aquela do SENTIR.

http://www.youtube.com/watch?v=DLV-k7GcifQ&feature=PlayList&p=2D1F56397CF1A03D&index=0

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