Paul Delvaux - The Village of the Mermaids-1942"...Eu gostaria de dormir, para poder me entregar aos dormidores, como me entrego aos que lêem, olhos bem abertos; para cessar de fazer prevalecer o ritmo consciente de meu pensamento. Meu sonho dessa última noite talvez prossiga o da noite precedente, e seja prosseguindo na próxima noite, com louvável rigor. É bem possível, como se diz. E como não está de modo nenhum provado que, fazendo isso, a "realidade" que me ocupa subsista no estado de sonho, que Lea não afunde no imemorial, porque não haveria eu de conceder ao sonho o que recuso por vezes à realidade, seja esse valor de certeza em si mesma, que, em seu tempo, não está exposta ao meu desmetido? Por que não haveria eu de esperar do indício do sonho mais do que espero de um grau de consciência cada dia mais elevado? Não se poderia aplicar ao sonho, ele também, resoluções de questões fundamentais da vida? Serão estas perguntas as mesmas num caso como no outro, e nos sonhos elas já estão? O sonho terá menos peso de sanções que o resto? Envelheço, e mais essa realidade à qual penso me adstringir, é talvez o sonho a indiferença que lhe dedico, que me faz envelhecer..."
BRETON, André. Manifesto Surrealista
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