Alguma coisa sempre vai, bem mansinho se vai. Aquela fé enraizada em tipos auto-retratos, desfocados na parede invisível dos que tem medo.
E Ana fica alí, sentada, sempre às cinco horas, no jardim de inverno. Paralisada. O silêncio da rua deserta. O ronronar do gato. O pulso...
Alguma coisa sempre se vai.
Havia também um trincar no espelho do banheiro, onde Ana sempre se colocava a se torturar. Da onde vinha aquela rachadura? Não estava aqui antes. Estava?
Abria a janela logo quando acordava numa atitude insistente, rígida e intragável. Às vezes recuava. Arriscara-se a ser aquilo que era, na rachadura do banheiro. Alguma coisa sempre se vai.
No banho prestava atenção em tudo aquilo que pudesse causar um frémito de esperança, de satisfação ou de um êxtase idiota. Ana gostava das experiências particulares. Naquele dia, um fio de cabelo escorria tranquilo com a água morna no colo de Ana. Um fio preto, grosso e vistoso. Sadio. É claro que era o fio dele escorrendo na pele branca dela, Ana tinha o cabelo fininho, opaco e frágil. Observou-o até chegar no ralo. Chorou tomada por uma sensibilidade estética súbita que sacudiu todas as partículas pesadas do seu corpo.
Eles haviam dormido juntos aquela noite. Não estava sozinha... Ana chorou. Chorou pequena.
Nos dias que passavam rápidos atrozes tudo podia chamar-lhe a atenção num arrebatar de mulher. Somente as coisas sem importância.
Mas aquele barulho do gato era insuportável no silêncio, às cinco horas, quando o sol se cansa, o instante sempre se rebentara. E o pulso ritmado tentando se auto-defender da sua própria incredulidade. É verdade que alguma coisa sempre se vai. Mas faça tudo direitinho: levanta, nos passos conta um, dois, três, quatro... a luz entra violenta e talvez espante o gato de cima da cama. Talvez.
ESCRITO POR MIM E INSPIRADO NO CONTO "AMOR" DE CLARICE.
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