"O corpo envelhece e morre, mas segue dançando com a Energia do Universo. A morte é um novo começo. E quando eu morrer, vou começar de novo dentro do universo, vou continuar dançando". Kazuo Ohno
Só hoje fiquei sabendo que Kazuo Ohno morreu nesta terça. Uma figura que me emociona e me impressiona profundamente com sua arte. E confesso que eu, com essa minha mentalidade ocidental castrada de tantos vôos, assim que fico sabendo que alguém morreu me vem um sentimento instantâneo de vazio. Inevitável. Foi assim também quando eu fiquei sabendo que Pina Baush havia falecido. Mas, momentos depois, começei a refletir em tudo o que Kazuo Ohno representa não só para a dança, mas para a arte mesmo. E foi assim me meu peito começou a se encher novamente.
Butho não é uma dança lá do oriente, Butoh é a revelação de um estado de alma e dos mistérios de todos nós. Uma dança que nasce das cinzas de uma bomba que condenou todas as verdades, crenças absolutas. Butoh influencia todas as culturas e todas artes. É antes de mais nada uma nova tentativa do olhar, uma conversa com a morte/vida repleta de significações mais amplas num retorno às origens. Butoh é o teatro metafísico, é o teatro da crueldade de Artaud. É o ponto de partida onde muitos queriam alcançar. Se trata de uma dança que nos faz lembrar de que somos corpos, corpos pulsantes no meio do caos do homem moderno que reivindica o sagrado. Uma negação total das materialidades, das castrações de corpos e da sua natureza, natureza que admite pluralidades infinitas e onde existe uma comunicação maior, distante das convenções.
Para hijikata, grande amigo de Kazuo, o caminho para o interior é uma conversa com a morte, as sombras desconhecidas que emergem, são movimentos da morte.
Antunes filho diz que, quando vê Hijikata, é como se ele estivesse diante da bomba atômica: lembra a atomização de tudo, o fim, o caos. E Kazuo Ohno é a lembrança: a mãe, é como se a terra tivesse uma memória, e ele fosse recompondo tudo isso por meio de arquétipos. "Ele trabalha sempre no grande vazio, nessa passagem para esse mundo sensorial onde vivemos. Ele fica no limite, sempre em cima da linha entre esses dois universos."
Uma dança do inconsciente, do implícito, da alma. O elo do corpo com o homem e o corpo com o mundo. O reconhecimento e a busca do inexplorado.
"MINHA DANÇA É A CRIAÇÃO DO MUNDO, A REVELAÇÃO DO SER, O ENCONTRO DO HOMEM COM A VIDA" (Kazuo Onoh)
Segue um pequeno artigo de Heleza Katz pra conhecer um pouco mais...
"Nasceu em 1906, em Hakodate, Hokkaido. Aos 23 anos, decidiu tornar-se bailarino, depois de assistir a daçarina espanhola La Argentina. Kazuo era professor professor de ginática quando matriculou-se na escola de Baku Ishii (1933) No ano seguinte, descobriu a daça expressionista do alemãoHarald Krevtzberg, tornou aluno de Takaya e, em 1949, estreou seus primeiros solos. Tinha 43 anos.
Batizou-se como cristão, e fez dessa fé uma de suas mais profundas fontes de inspiração. Acreditava em Deus, no potencial do homem para o amor e para a generosidade, na vida.
Para ele, a dança deve revelar "a forma da alma" e, para tal, o dançarino deve apartar-se da sua identidade social e física.
Kazuo falava muito do "corpo morto" e da liberdade. Quando o corpo não está "morto", a emoçao fica sendo guiada pela lógica. Para dançar livre, o corpo precisa rejeitar a noção de si mesmo, buscar a sua memória original e descobrir a alma. Convicções que ecoam Grotowisk, para quem a verdade surge quando se quebram os condicionamentos.
O encontro com Tatsumi Hijikata aconteceu em 1954. Cinco anos depois, a primeira colaboração: The Old Man and the Sea, uma adaptação de Hemingway, coreografada por Hijikata. Ohno desmaiava ao fim de cada ensaio. À medida que a estréia se aproximava, perguntava-se: "- desmaiarei também no palco?". Sim. Desmaiou.
Produzou com Hijikata até 1966. Depois, participou apenas de espetáculos de outros criadores e fez três filmes. Em 1976, na vernissage de um amigo, estanca na frente de um quadro não figurativo, como que eletrizado:
"-Mas isso é La Argentina!!"
Volta para casa e encontra um poster dela(presente dos alunos Eiko e Koma).
Conta que ela lhe sorria, de lá, convidando:
"- Kazuo, dance comigo."
Meses depois volta a cena. Estréia, em Tóquio, quele que se tornaria seu solo mais famoso: Admiring La Argentina.
O mundo só se deu conta de Kazuo Ohno em 1980, no festival de Nancy, quando ele dançou esse solo e mais outro, Ozen(A mesa). A paisagem da dança nunca mais foi a mesma. A descoberta do Butoh de Kazuo Ohno, lá em 1986, aqui em São Paulo, é o vento que faz da dança uma duna, sempre a mesma e sempre outra."
Tatsumi Hijikata: o demiurgo que fez do Butoh um terreno pessoal
Hijikata desenheou o estatuto estético butoh. É dele o conceito de Ankoku Butoh (a dança das trevas). A força de sua influência ocorreu da dança para as outras artes. Pintores, poetas, músicos - ninguém escapava a força de sua energia. Boêmio, troxe para o palco da dança os traços da sexualidade, erotismo, artificialidade que observa na vida noturna - constante fonte de sua criação.
Começou fazendo dança moderna. Mas a 24 de maio de 1959 estreou uma pequena obra, inspirada em Mishima: Kinjiki (Cores proibidas). O escândalo foi tamanho que a maioria dos membros do Japanese Dance Association, que havia patrocinado essa criação, ameaçou renunciar, caso coreografias semelhantes repetissem.
Kinjiki não tem música. Um homem (Yoshito ohno, filho de Kzuo) mantém relações sexuais com uma galinha. Outro homem (o próprio Hijikata) se insinua ao primeiro. Com essa peça, Hijikata inicia sua crença no corpo como um fim, nunca um meio. Pra ele o corpo não transmite idéias, não faz discursos. O corpo repensa, recria.
E a dança não acontece como um arranjo sintático de movimentos, pois nunca ocorre como uma composição linear.
O obscuro, a violência, as perverções, Sade, Genet, Lautréamont, ritualizações heréticas, o grotesco, o ridículo. No início, tudo isso aparecia num universo exclusivamente masculino. O feminino irrompe a sua dança.
A metamorfose para a atraí-lo. O corpo que assume a forma de um "outro":gato, vento, pedra ou qualquer outro ser. Corpo polifórmico em cerimonias misteriosas de transformação.
Hijikata e Kazuo Ohno: mestres fundadores dessa fábrica de imagens que o Japão doou ao mundo. Que fertilizou outras danças, outros teatros, outras pintutas, outras músicas. Uma arte em busca de seu corpo não tinha como evitar que a passagem - e não a chegada - lhe ocupassem os espaços. Japão antigo e moderno, oriente e ocidente, homem e mulher. Paródia de almas."
Helena Katz é crítica de dança do Jornal O Estado de Sao Paulo e da TV Cultura de Sao Paulo. Coordenadora do laboratório de Dança do Programa de Semiótica da PUC/SP. Autota de "A Cena da Origem" e "Danças Populares Brasileiras".
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