"...é tão ampla a diversidade, que todos os tons de voz, todos os passos, tosses assôos, esírros... Se uma cacho de uvas não tem duas sementes iguais, como querem que lhes dcreva este bago pelo outro, por todos os outros, que dele façam um bago bom para comer? Esta intratável mania que reduzir o desconhecido ao conhecido, AO CLASSIFICÁVEL, embala os cérebros. O desejo de análise prevalece sobre os sentimentos. Disso resultam dilatadas exposições cuja força persuasiva reside na própria singularidade, e que iludem o leitor pelo recurso a um vocabulário abstrato, bastante mal definido, aliás. Se as idéias gerais que a filosofia se propõe até aqui debater, marcassem por aí sua incursão definitiva num domínio mais extenso, seria eu o primeiro a me alegrar. Mas por enquanto é só afetação; até aqui os ditos espirituosos e outras boas maneiras nos encobrem à porfia o verdadeiro pensamento que se busca ele próprio, em vez de se buscar em obter sucessos. Parace que todo ato traz em si mesmo sua justificação, ao menos para quem foi capaz de comete-lo, que ele é dotado de um poder radiante que a mínima glosa, por natureza, enfraquesse (...) Breton
"Poderíamos dizer que a imensidão é uma categoria filosófica do devaneio. Sem duvida, o devaneio alimenta-se de espetáculos variados; mas por uma espécie de inclinação inerente, ele contempla a grandeza. E a contemplação da grandeza determina uma titude tão especial, um estado de alma tão particular, que o devaneio coloca o sonhador fora do mundo próximo, diante do mundo que traz o signo do infinito.
Pela simples lembrança, longe das imensidões do mar, na planície, podemos, na meditação, renovar em nós mesmos as ressonâncias dessa contemplação da grandeza. Mas trata-se realmente de uma lembrança? A imaginação, por si só, não poderá aumentar ilimitadamente as imagens da imensidão? A imaginação não será ativa desde a primeira contemplação? De fato, o devaneio é um estado inteiramente constituído desde o instante inicial. Não o vemos começar e no entanto ele começa sempre da mesma maneira. Ele foge do objeto próximo e imediatamente está longe, além, no espaço do além. (...)
A imensidão está em nós. Esta ligada a uma espécie de expansão de ser que a vida refreia, que a prudência detém, mas que retorna na solidão. Quando estamos imóveis, estamos algures; sonhamos num mundo imenso. A imensidão é o movimento do homem imóvel. A imensidão é uma das características dinâmicas do devaneio tranquilo. (...)
Embora parecça paradoxal, muitas vezes é essa imensidão interior que dá seu verdadeiro significado a certas expressões referentes ao mundo que vemos (...) Como dizer melhor que as funções da descrição - tanto descrição psicilógica quanto objetiva - são aqui inoperantes? Sentimos que há outra coisa a exprimir além daquilo que se oferece objeticamente à expressão. O que seria necessário exprimir é a grandeza oculta, uma profundidade. Longe de nos entregarmos a prolixidade das impressões, longe de nos prender nos detalhes de luz e sombras, sentimo-nos diante de uma impressão "essencial" que procura sua expressão..." Bachelard

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