terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Sobre o meu predileto de Lynch

O Estranho Reino de Sombras de Davis Lynch
Primeiro filme de cineasta americano é experiência cinematográfica única.Trinta anos após a sua estreia, Eraserhead (1977) é reposto nas salas portuguesas. David Lynch, o seu autor, tinha então 31 anos, mas iniciara o trabalho no filme com apenas 26. Partindo de um guião de 21 páginas, escrito como uma espécie de "poema livre", Eraserhead recebeu inicialmente do American Film Institute um financiamento de 10 mil dólares para um filme que duraria 42 minutos e seria rodado em seis semanas. No entanto, o processo de produção acabaria por se estender ao longo de seis anos, com muitos problemas, desistências, substituições e reformulações pelo meio, revelando-se a tenacidade e a paixão de Lynch e da sua restrita equipa fundamentais para dar à luz uma obra cuja gestação foi uma autêntica provação.

Eraserhead viria a tornar-se objecto de culto, revelando-se também como uma obra seminal no percurso artístico de Lynch. Apesar de o cineasta haver realizado anteriormente algumas curtas-metragens, Eraserhead é o filme em que Lynch lança as raízes da sua idiossincrática linguagem, que lhe granjearia a fama de mestre do bizarro. É nele que o autor pela primeira vez plasma com solidez o seu universo pessoalíssimo, espécie de reino de sombras que procura expressar acima de tudo as profundezas do mar do inconsciente onde se esconde o gigantesco icebergue do ser, cuja ponta, a consciência, é apenas a sua face visível.


Eraserhead é um filme originalíssimo, de uma beleza radical, saturniana e abstracta. Lynch transfigura a sua própria experiência autobiográfica da ansiedade da paternidade numa história sobre um homem simples e taciturno, Henry Spencer (Jack Nance, cuja personagem é um alter-ego de Lynch), que acaba de ser pai de uma criatura mutante que se parece mais com um ser alienígena do que com um bebé prematuro. Henry vive uma existência confinada ao seu quarto e entregue à opressiva responsabilidade de tomar conta do bebé que a sua namorada, Mary X (Charlotte Stewart), abandonou a seu cargo. O ambiente claustrofóbico acaba por funcionar como projecção da asfixia que a personagem sente perante a angustiosa obrigação de ser adulto.


O sentido do filme é metafórico, e o seu tom particularmente kafkiano (há aqui ecos de A Metamorfose). Objectivamente, a situação descrita é absurda; mas o que interessa a Lynch é a realidade subjectiva, a forma como o artista experimenta o real. Nesse sentido, Lynch é um expressionista, porque retrata o seu mundo interior, a realidade deformada, distorcida e amplificada pela lente da sua objectiva emocional. Eraserhead seria assim um filme expressionista, dominado por aquela sensação de alienação existencial que assombra os filmes do género.Toda a opressiva atmosfera do filme parece querer transmitir não só um profundo sentimento de perturbação, como reproduzir o clima mental de Lynch, quase como se o autor nos estivesse a dizer "esta é a minha cabeça".


Nuno Carvalho, diario de notícias, 22.11.2007

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