sexta-feira, 25 de março de 2011

Fui tomada de súbito pela porrada!





"Poema porrada"

Eu estou farto de muita coisa

não me transformarei em subúrbio

não serei uma válvula sonora

não serei paz

eu quero a destruição de tudo que é frágil:

cristãos fábricas palácios

juízes patrões e operários

uma noite destruída cobre os dois sexos

minha alma sapateia feito louca

um tiro de máuser atravessa o tímpano de

duas centopéias

o universo é cuspido pelo cu sangrento

de um Deus-Cadela

as vísceras se comovem

eu preciso dissipar o encanto do meu velho

esqueleto

eu preciso esquecer que existo

mariposas perjuram o céu de cimento

eu me entrincheiro no Arco-Íris

Ah voltar de novo à janela

perder o olhar nos telhados como

se fossem o Universo

o girassol de Oscar Wilde entardece sobre os tetos

eu preciso partir um dia para muito longe

o mundo exterior tem pressa demais para mim

São Paulo e a Rússia não podem parar

quando eu ia ao colégio Deus tapava os ouvidos para mim?

a Morte olha-me da parede pelos olhos apodrecidos

de Modigliani

eu gostaria de incendiar os pentelhos de Modigliani

minha alma louca aponta para a Lua

vi os professores e seus cálculos discretos ocupando

o mundo do espírito

vi criancinhas vomitando nos radiadores

vi canetas dementes hortas tampas de privadas

abro os olhos as nuvens tornam-se mais duras

trago o mundo na orelha como um brinco imenso

a loucura é um espelho na manhã de pássaros sem Fôlego


Paranóia , de Roberto Piva (1937-2010).


Presta atenção! Apesar de tantos vultos que vivem querendo me assassinar, ou me salvar, não sei, meu amor é meu único privilégio que permanece intacto! Ou melhor, um mergulho cada vez mais fundo...

R.P.

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