
A janela se abrira lentamente... sempre no mesmo horário e sem reflexão. e sempre aquela mesma mulher nua, de costas, paralisada, com o olhar perdido de sempre. sem reflexão. os sapatos traziam o estúpido pavor logo em seguida. (ruídos de marcha e aproximação)
-Fe-cha-a-jane-la!
Uma claustrofobia parecia perfurar seus ossos... mas a imagem da mulher nua num pedido de uma sorte qualquer não saia dalí. nem por oração.
Marta sempre condenando-a por insistir em abrir a janela. com o copo na mão, o balançar de cabeça e a ironia de uma travesti.
O imprevisto se rendeu e Marta se aproxima toda impiedosa erguendo com cautela a cabeça crua da moça e, com a ponta da unha, carrega sua boca até a dela e lhe beija num ato de solidão. de compartilhamento de uma solidão. mas uma solidão digna. justa. sem auto-piedade. livre da fadiga e sem proibição.
R.P.
Imagem de Hopper.. sempre inspirador.
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