"[...] Esse fundo, essa unidade rítmica dos sentidos, só pode ser descoberta ultrapassando-se o organismo. A hipótese fenomenológica é talvez insuficiente porque invoca somente o corpo vivido. Mas o corpo vivido é ainda pouco em relação a uma Potência ainda mais profunda e quase insuportável [...] Para além do organismo, mas também como limite do corpo vivido, há o que artaud descobriu e nomeou: corpo sem órgãos. "O corpo é o corpo Ele está sozinho E não precisa de órgãos O corpo nunca é um organismo Os organismos são os inimigos do corpo" O corpo sem órgãos se opõe menos aos órgãos do que à organização dos órgãos que se chama organismo. É um corp intenso, intensivo. Ele é percorrido por uma onde que traça no corpo níveis ou limiares segundo as variações de sua amplitude. O corpo, portanto, não tem órgãos, mas limiares ou níveis. De modo que a sensação não é qualitativa nem qualificada; ela possui apenas uma realidade intensiva que nela não determina mais dados representativos, mas variações alotrópicas. A sensação é vibração. Sabe-se que o ovo apresenta-se esse estado de corpo "antes" da representação orgânica: eixos e vetores, gradientes, zonas, movimentos cinemáticos e tendências dinâmicas em relação aos quais as formas são contingentes ou acessórias. "sem boca. Sem língua. Sem dentes. Sem laringe. Sem esôfago. Sem estômago. Sem ventre. Sem ânus." Toda uma vida não orgânica, pois o organismo não é a vida, ele a aprisiona. O corpo é inteiramente vivo e, entretanto, não orgânico. Portanto, quando a sensação atinge o corpo através do organismo, adquire um caráter excessivo e pasmódico, rompe os limites da atividade orgânica. Em plena carne, ela age diretamente sobre a onda nervosa ou a emoção vital. Bacon se aproxima de Artaud em muitos pontos: a figura é o corpo sem órgãos (desfazer o organismo em proveito do corpo, o gosto em proveito da cabeça); o corpo sem órgãos é carne e nervo; uma onda o percorre deliniando níveis; a sensação é como o encontro da onda com Forças que agem sobre o corpo, "atletismo afetivo", grito-sopro; quando é assim referida ao corpo, a sensação deixa de ser representativa e se torna real; e a crueldade cada vez menos ligada à representação de alguma coisa horrível, ela será apenas a ação das forças sobre o corpo, ou a sensação (o contrario do sensacional). Bacon nunca deixou de pintar corpo sem órgãos. As partes limpadas e escovadas em Bacon, são partes neutralizadas de organismo, restituído ao seu estado de zonas ou níveis: "o rosto humano ainda não encontrou sua face..."do livro "Francis Bacon - Lógica Da Sensacão" de Deleuze
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