"[...] e quando menos se esperava, Ana, que todos sempre julgavam na capela, surgiu impaciente numa só lufada, os cabelos soltos espalhando lavas, ligeiramente apanhados num doa lados por um coalho de sangue (que assimetria mais provocadora!), toda ela ostentando um broche exuberante, uma borra gordurosa no lugar da boca, uma pinta de carvão acima do queixo, a gargantilha de veludo roxo apertando-lhe o pescoço, um pano murcho caindo feito flor da fresta escancarada dos seios, pulseiras nos braços, anéis nos dedos, outros aros nos tornozelos, foi assim que Ana, coberta de quinquilharias mundanas da minha caixa, tomou de assalto a minha festa, varando com a peste no corpo o círculo que dançava, introduzindo com segurança, ali no centro, sua petulante decadência, assombrando os olhares de espanto, suspendendo em cada boca o grito, paralisando os gestos por um instante, mas dominando a todos com seu violento ímpeto de vida, e logo eu pude adivinhar, apesar da graxa que me escureceu subitamente os olhos, seus passos precisos de cigana, se deslocando no meio da roda [...] Ana, sempre mais ousada, mais petulante, inventou um novo lance alongando o braço, e, com graça calculada, (que demônio mais versátil!), roubou de um circundante a sua taça, logo derramando sobre os ombros nus o vinho lento, obrigando a flauta a um apressado retrocesso lânguido, provocando a oração dos que a cercavam, era a voz surda de um coro ao mesmo tempo sacro e profano que subia, era a comunhão confusa da alegria, anseios e tormentos, ela sabia surpreender, essa minha irmã, sabia molhar a sua dança, embebedar a sua carne, castigar a minha língua no mel litúrgico daquele favo, me atirando sem piedade numa insólita embriaguez, me pondo convulso e antecedente, me fazendo ver com uma espantosa lucidez, as minhas pernas de um lado, os braços do outro, todas as minhas partes amputadas, se procurando na antiga unidade do meu corpo (eu me reconstruía nessa busca! que salmoura nas minhas chagas, que ardência mais salubre nos meus transportes!) [...]"
Ruduan Nassar
Um comentário:
no filme, as mulheres quase nao falam...
eu assiti a esse filme sozinha qdo o cine ouro verde ainda existia e era reduto de tarados e putas nas matinês
eu nao era tarada nem puta, e ia assistir sozinha.
era bom!
ler isso me deu vontade de ver de novo, ce tem o filme? empresta?
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