"Quando criança, meus modos femininos eram sempre repreendidos. Era um desses meninos com a voz aguda e esganiçada, que agita as mãos e fica afetado demais ao falar. Isso fazia com que meus pais se sentissem extremamente desconfortáveis. Tentaram de todas as maneiras possíveis transmitir sua reprovação do meu ego básico. Começando na idade de quatro anos. Havia sempre um Dave invisível, um que nunca existiu e nem podia existir, que esperavam encontrar miraculosamente a cada manhã à mesa do café. E quando, pelo contrário, tudo o que viam era um pequeno fracote, desmunhecando e com uma vontade de ferro, um pequeno maricas corajoso, ficavam extremamente irritados.Meu pai, minha mãe e eu discutimos, alguma coisa sobre lógica, a beleza do antiquado, a diversão de se perder. Acho que essas foram as opiniões que expressei. Meu pai, irritado por não estar sendo reverenciado, acabou parando o carro à beira da estrada e me mandando sair para a neve. Fiquei no asfalto, apenas um menino, enquanto meu pai dava a partida. Mas ele não foi muito longe. Depois de avançar cerca de oito metros, o carro parou com o motor ligado. Alguma mão anônima abriu a porta de trás. O carro ficou alí, zumbindo no silêncio do inverno, enquanto seus passageiros sem rosto esperavam eu me aproximar, reaproximar.
O plano dele era óbvio. Pretendia deixar-me instantaneamente submisso pelo medo de ser abandonado. Eu deveria entrar em pânico e, depois, chorar, correr na direção deles com gratidão e desejo. Ele esperava anular minha virilidade temporária, reduzindo-me novamente a uma criança impotente. Enfim, eu deveria correr na direção da porta aberta e tornar a entrar no carro, humilhado, submisso e, o mais importante, calado.
Mas, em vez disso, aconteceu uma outra coisa. Comecei a me afastar do carro, caminhando na direção contrária, nessa rua de mão única. Não precisei olhar para trás. Eles obviamente não haviam se movido. Continuei andando, seriamente, com determinação, e não dominado por alguma emoção vingativa frívola. E, finalmente, após dobrar a curva, escutei o carro de meu pai dar a partida freneticamente, sabendo que agora ele teria de passar por caminhos secundários que não conhecia para conseguir se aproximar de mim à minha maneira. Passou-se um certo tempo, longo o bastante para que eu me perdesse em um devaneio compreensivo, até que finalmente conseguiu achar o caminho de volta, ao longo da mesma estrada, a partir do seu começo, e me alcançou.
Não sei o que eu tinha imaginado encontrar dentro do carro. Se tivesse imaginado algo, provavelmente seriam os quatro dissecando racionalmente o mapa, tentando alcançar seu destino com eficácia, que era eu. Mas, surpreendentemente, quando caí com o chape no banco traseiro, fui recebido com minha irmã e meu irmão chorando incontrolavelmente, com expressão de terror absoluto em seus rostinhos. O que tinha acontecido comigo era a pior coisa que podiam imaginar. Seu medo de minha experiência teria um efeito muito mais profundo em sua vidas do que a experiência que os apavorava teve realmente na minha. Esse foi o dia mais importante na vida de meu irmã e de minha irmã. Foi o dia em que aprenderam o medo, o dia em que foram recrutados para aprender a matar."
trecho do livro "Boêmia dos ratos"
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